A conjuntura os perdoará: um peronismo à brasileira

Rafael V. da Silva

A base de sustentação de Perón, que governou a Argentina durante um longo período era uma complexa amálgama de sindicatos, organizações de juventude e setores populares, de distintas expressões políticas. Assim como se apoiava em certos setores empresariais e conservadores. Nos tempos em que o peronismo foi proscrito (Perón depois de um golpe teve de se exilar no país por 18 anos) o peronismo se tornou definitivamente a grande força política a ser disputada. Haviam peronistas de esquerda e peronistas de direita, todos disputando o “verdadeiro” Perón.

Havia Perón para todos os gostos. Os peronistas de esquerda alimentavam o mito de um peronismo revolucionário, um peronismo que levaria ao socialismo nacional e os peronistas de direita um Perón argentino, nacional e com base nas tradições locais.

No tão esperado retorno e novo governo de Perón ao país, os peronistas de esquerda a cada comunicado de Perón distorciam a realidade para afirmar que Perón tocava um projeto popular revolucionário. A cada medida impopular e ajuste econômico que afetavam sindicatos e a classe trabalhadora, os peronistas de esquerda diziam que Perón só fazia aquilo por ter de ceder aos setores conservadores. Cada ataque de Perón a classe trabalhadora, os peronistas de esquerda diziam: “calma, espere”, logo adiante, virá a grande jogada do líder rumo ao socialismo nacional. “É tudo uma estratégia de Perón” para construir o socialismo.

Perón tomando um café.

Perón tomando um café.

A repressão se abatia sobre as organizações da esquerda armada peronista (os montoneros) e a direita assassinava a céu aberto os setores da esquerda peronista sob a vista grossa de Perón. Este, ao ser questionado por uma jornalista se estava investigando as organizações paramilitares de direita que assassinaram 12 militantes peronistas ordenou que a jornalista fosse presa por difamação e a processou legalmente. A jornalista ficou presa 14 meses e posteriormente foi baleada pela direita que denunciou. A situação de crise seguia e quando o golpe que tirou Salvador Allende do poder eclodiu, Perón se referiu ao evento como uma “tragédia”.

E logo depois, Perón receberia Pinochet… declarando que as “relações com Chile são excelentes” e condecorando o ditador com a Ordem de Maio, uma medalha que é dada aqueles que contribuem ao progresso, ao bem estar, a cultura e a solidariedade internacional. 

Em 1973, durante um comício, Perón perdeu as estribeiras ao ser questionado por grande parte da multidão, sobre o que fazia ao governar com “gorilas e oligarcas ao seu lado”. Enfurecido, o líder argentino atacou a esquerda peronista que abandonou o ato diante os ataques verbais de Perón. A ruptura com Perón, pouco tempo durou. A esquerda peronista ignorou as subsequentes provas de que Perón geriu o governo como quem toca um violino: “tomando o pela esquerda e tocando-o pela direita”.

Mas a história é caprichosa. E Perón morrera subitamente de um enfarto. A massa peronista de esquerda, não fez autocrítica e a morte do líder político apenas galvanizou o que lentamente vinha sendo cultivado por sua base de apoio à esquerda. Morria o homem, nascia o mito.

No Brasil temos algo parecido, ainda que seja um grande anacronismo comparar Perón com o governo petista diante não só de uma conjuntura distinta, mas de uma realidade nacional completamente diferente.

O governo de Dilma prossegue fazendo o que era prometido pela direita lato-sensu. Pôs o exército nas favelas, prosseguiu com a política de assassinato da juventude negra e pobre, cortou direitos dos trabalhadores, enxugou o orçamento da saúde e da educação em níveis nunca atingidos e fez com que trabalhadores pagassem a conta da crise. Dilma até, veja só, cumprimentou e elogiou Henry Kissinger, consultor de segurança dos EUA que teve uma atuação central na política externa norte-americana em apoiar as violentas ditaduras militares na América do Sul. Num ato falho, Dilma antes de encontrar Kissinger comparara a delação de empreiteiros com a de presos políticos torturados pela ditadura, para em seguida elogiar Kissinger, um atuante articulador dos bárbaros regimes militares como uma “pessoa fantástica, com grande visão global”.

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Dilma e o carniceiro Kissinger.

Num movimento dramático, tal como o de Perón, nos momentos críticos, em que teve de sacar algumas cartas para se defender da oposição, o PT chama o apoio de sua base sindical e de movimentos populares. E parte significativa da sua base acha que pode pressionar o governo do PT a adotar as demandas populares acreditando, nesses momentos que este age em algum grau de sintonia com essas forças. Não age. Por isso pôs uma agro-empresária no Ministério da Agricultura. O símbolo mais odioso do progresso capitalista que passa por cima de povos indígenas e comprime a reforma agrária num “sifão”. Reforma agrária que diga-se de passagem, assentou menos famílias que o governo de Fernando Henrique Cardoso… 

Não agirá em defesa dessas forças. Não por uma questão moral (o “funcionamento” do Estado não é moral), mas porque as regras de um campo não se aplicam automaticamente a outro campo. O Estado tem suas regras. Dilma e o PT estão comprometidos até o osso com as engrenagens do Estado, da governabilidade, da economia capitalista. Isso ficou nítido quando pôs um chicago Boy no ministério da fazenda. Ao ganhar as eleições o PT e Dilma se comprometeram com as regras do jogo. O PT não pensa mais com as regras dos movimentos (desde muito…), pensa com as regras do poder instituído, porque dele agora faz parte. O PT é parte da classe dominante. Não se movimenta mais com as engrenagens dos movimentos, se movimenta com as da máquina burocrática eleitoral-estatal. 

Uma base ainda mais restrita (ou talvez, ainda mais mistificada), ainda acredita na vocação “revolucionária” do PT. Tal como a base que sustentava Perón, ainda esperam um giro a esquerda que não acontecerá. Com isso apela a um possível mudança de rumo (com Lula ou Dilma). A cada giro de direita de Dilma e do PT, a base governista denuncia, tal como os peronistas de esquerda denunciavam os “traidores que cercam Perón”: que a culpa é de Levy, é do PMDB, é da ala a direita (e qual é a de esquerda?) do partido dos trabalhadores, é da conjuntura (“a conjuntura os perdoará”), da crise, da correlação de forças! Os argumentos e o contexto, servem sempre para justificar o giro à direita. Nunca para realizar a autocrítica necessária: onde foi que a coisa se perdeu. Onde foi que o Leviatã engoliu o projeto “popular”? Onde foi que montaram esse peronismo à brasileira?

Tal como o sintoma, o giro a direita apenas expõe a ponta do iceberg. Ficar no sintoma é confundir os efeitos da doença com a própria doença. É na relação com o Estado, esse órgão par excellence da classe dominante que está a chave do sintoma, do complexo. Cabe a quem mistifica essa relação olhar os fatos e abandonar definitivamente os mitos. A ilusão não é em Dilma (esse é só o sintoma). A ilusão é no Estado. 

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