A Microfísica do poder, o Estado neodesenvolvimentista versus neoliberal, e uma análise de conjuntura por meio da Greve dos Professores do Paraná – Parte II

Por Luiz Felippe de Castro H.

Segunda parte

Leia a primeira parte aqui.

 

Aonde chegamos com tudo isso? E o que isso tem a ver com a greve? Temos visto um aumento da intensidade da luta de classes, que não víamos desde as décadas de 70 e 80, justamente o momento de formação do PT. Temos visto um novo padrão de conflitos surgir, e a ação direta tomar as ruas de novo. A greve dos professores, se não se encaixa estrito senso neste “novo” padrão de luta – por ser um sindicato há muitos anos formado, e que tem na sua direção o PT a 30 anos – ainda assim, podemos afirmar que o fenômeno da radicalização das lutas que arrebata o Brasil desde 2013 ali está presente, pois é notória a pressão da base sobre a direção para que a luta se radicalize. A contragosto da direção se aprovou a greve em 2014 e 2015, se ocupou a Assembleia legislativa, e se implodiu a sessão que votaria o pacotaço. À direção coube o papel de aceitar, e cinicamente se colocar como organizadora da radicalização no “chão de fábrica” da categoria, ao mesmo tempo, que no discurso oficial do sindicato encontramos a criminalização daqueles que radicalizaram (inclusive fazendo menção a “infiltrados” anarquistas e do MPL, mesmo argumento usado para Richa para descrever a radicalização dos professores). É sintomático que PSDB e PT tenham acordo neste ponto, o acordo se dá, na medida em que ambos intentem que a “luta de classes” não deve extrapolar as urnas, ou seja, a oposição entre PT e PSDB, e que é de quatro em quatro anos que deve se estabelecer no marco institucional.

 

O Estado neoliberal, acaba por gerar um conflito de classe insolúvel.

O Estado neoliberal, acaba por gerar um conflito de classe insolúvel.

A situação que gera o PSDB no estado, governo estrito senso neoliberal, acaba por inevitavelmente colocar os professores, categoria que estamos tomando como exemplo, em greve. Não receber salários, cancelar progressões e praticamente acabar com a previdência e com uma paulada só, faz com que mesmo a direção mais pelega tenha de aceitar a greve. Mais que isso, a direção é obrigada a aceitar a radicalização da base. Desesperados os professores acabam por topar mesmo a enfrentar a polícia, invadir a câmara, mesmo que para isso seja necessário “vandalismo” (isto é, derrubar portões, quebrar vidros, portas, etc.). Cabe lembrar que mesmo a polícia hesita em vários momentos a reprimir, isso corroborado pela ação do governador que não os paga e deixa mesmo sem água e comida em serviço, o que colabora com a capacidade da população enfrentar o Estado. A direção como pudemos observar tenta segurar esse ímpeto a todo momento (um exemplo prático: ordena que seus quadros façam cordões frente a polícia, dentre outras ações típicas dos pelegos) mas frente a situação é inadmissível que recue ou bata em retirada, e assim se obriga a bancar a vontade da base, para não perder as rédeas do processo.

O que busco destacar desta greve, que se configura como um microcosmo do poder, e assim faz reproduzir e reproduz a realidade, estrutura e é estruturada como quer Bordieu, é que o PSDB coloca o Estado em condição de tamanha precariedade, que a luta de classes mais frontal, isto é, mais ostensiva se faz realidade, e mais, Richa desestrutura mesmo a capacidade de se defender o Estado (a repressão), assim o Estado neoliberal, acaba por gerar um conflito de classe insolúvel, tendo como resultado um padrão de luta de classes não facilmente controlável. Do outro lado da trincheira (eleitoral) não de classe, temos o PT, representado na greve pela direção do sindicato (da mesma CUT que sugeriu corte de salários e postos de emprego para enfrentar a crise), busca a todo momento trazer os “insurretos” professores para ordem. A cada fim de ação direta (ocupação, enfrentamento com forças da repressão para pôr fim a sessão, etc.), são trazidos ao movimento os “verdadeiros” representantes do povo, que são os deputados do PT ou base aliada. Estes representantes estão ali, para relembrar aos professores que estes “devem votar corretamente”, e mais, fazer com que os demais também o votem, pois “se fosse o PT no poder” não seria assim (mesmo sabendo que na esfera nacional e aonde o PT governa a austeridade se coloca), e que as condições de vida podem melhorar sem a sua agência, que não estariam ali “obrigados” a se manifestar se nossos gestores fossem os petistas.

Realmente o PT no governo, não chega ao cúmulo de deixar sem salários seus funcionários, todavia sabemos que na retirada de direitos é muito sutil a diferença, talvez tão sutil que nem exista.. Muitas vezes só é encoberta por um eufemismo (em vez de privatização se chama concessão), mas de qualquer modo pelos aspectos supracitados do neodesenvolvimentismo, este de fato faz mais confortável, talvez aceitável até certo ponto a exploração. O que quero apontar é que o PT está ali para lembrar a classe de que a política se faz nas urnas, e que eles os “bons representantes” devem ser eleitos. Com isso trazem novamente a base radicalizada destes trabalhadores para ordem, pois como colocam as direções dos sindicatos eles tem “responsabilidades”, e “sofrem pressões que nem imaginamos”, não imaginamos, mas sabemos é a pressão de quem tem o rabo preso com a ordem, de quem por algum motivo tem o dever e a obrigação também de jogar o jogo “democrático”(burguês) de acordo com as regras, e não deixar que as “peças” saiam do tabuleiro: que são os professores da base tomando as rédeas da situação.

Apontados os elementos de que parto neste esboço de uma análise, posso levantar minha hipótese, que em verdade é a conclusão deste ensaio, conclusão hipotética, pois se baseia em algum acúmulo de observações não sistematizadas e organizadas, e que ainda demandam de maior pesquisa, e um levantamento daquilo que foi dito em relação a isso. Estes como sempre, um projeto em longo prazo que compartilho com vocês aqui. Minha intuição, vai na direção de compreender que o PT (seu modelo) atualmente representa a única forma de capitalismo possível, pois o nível de consciência e de existência que as classes sociais conquistaram com o próprio processo de luta que origina a base social capaz de levar aos governos da América Latina às “esquerdas ao poder”, impossibilitam a existência de governos neoliberais, afinal estes apresentam uma agenda inconciliável com os anseios da população, da classe trabalhadora, e mergulham tais países em uma crise política profunda devido o nível de luta de classes que alimentam². Alguns estudos apontam que certos setores da direita estejam se colocando para fora das disputas eleitorais, se interessando somente por estar nessa para tensionar os governos e forçá-los a se deslocar para a direita. Deste modo afirmar que a face do PT hoje é a face mais “amiga” dos de “baixo” que o Estado poderia ter, e que este faz o máximo que pode, sim é uma verdade, uma verdade que se constrói desde “baixo” em nosso cotidiano. Todavia, isso não faz o projeto do PT menos burguês, pelo contrário o faz mais, afinal este é o modelo de Estado que serve como uma luva atualmente para as classes dominantes, talvez o único capaz de manter a ordem na atual conjuntura, a greve dos professores é exemplar para demonstrar isso.

O PSDB e sua política neoliberal, somado ao seu “trato” com os movimentos sociais, joga a classe totalmente para fora da arena da política institucional, faz com que a radicalização tenha de ser regra, pois nem mesmo o diálogo com os movimentos estes modelos de governo buscam, a única face do Estado que fazem a população conhecer é a repressão. Governos como o de Richa são ainda mais perigosos, pois até mesmo as forças de repressão conseguem colocar em crise. Este modelo coloca o confronto de classe inevitavelmente na agenda, colocando a classe, mesmo que contra a vontade de suas direções em conflitos diretos e altamente radicalizados com o Estado. Tal modelo de gestão leva ao limite as tensões, abrindo muito mais espaço para projetos que quando não de ruptura, ainda sim com conotações radicais.

O PT traz a classe ideologicamente para o seio do Estado. Atende mesmo que superficialmente as demandas da população. E nas bases, traz o movimento social para dentro dos gabinetes, para a disputa eleitoral, inscreve a disputa de classes no marco da ordem burguesa, da legalidade, da delegação de poder. É isso que pudemos ver nesses dias de greve. A despeito do discurso a esquerda, que vimos saindo da boca de burocratas da direção sindical “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”, para chamar as pessoas a desocuparem a câmara, sem sequer alguma garantia real de que o “pacotaço” não voltaria. O PT nesse microcosmo faz o papel de alimentar nas massas radicalizadas a esperança em uma saída mediada, de que a institucionalidade, que os “bons representantes”, que o bom voto pode resolver o problema, e isso é lembrado a todo momento sistematicamente, quando os parlamentares do partido vem demonstrar seu apoio.

Ai reside o ponto de complexidade de nossa análise, e de maior dificuldade para compreensão, principalmente quando se parte de análises unilaterais e mecanicistas de esquematismos teóricos que mais fazem por martelar a realidade para que caiba na análise “correta”, do que perceber a riqueza de variáveis, e a dificuldade de operar em um mundo que não se apresenta em “preto e branco” aos olhos dos expectadores. Existe uma interdependência entre as esferas política, ideológica e econômica. O unilateralismo analítico acaba por varrer para debaixo do tapete o que não importa aos olhos de quem busca a interpretação (ou “análise” correta). Se o PT corresponde a uma fórmula de capitalismo conveniente a um determinado momento de acirramento da luta de classes, por absorver sua força e catalisar para as urnas, por outro é notório que não são os favoritos ao menos de uma boa parte do capital, isso porque realmente apresentam um modelo de gestão próprio que traz certos conflitos a determinados interesses do capitalismo financeiro, na medida que com seu projeto neodesenvolvimentista buscam apoiar setores do capital nacional (as campeãs nacionais: Empreiteiras, petróleo, agronegócio), para isso tem de gestar certas condições que propiciem a salubridade para investimento em setores de capital fixo, que acabam por atingir o setor financeiro em seus interesses (não que isso os faça não lucrarem, mas os faz lucrar menos). Ideologicamente são os únicos capazes de trazer para a seara do Estado demandas reformistas da classe explorada. Mas mais do que isso, acaba por cooptar a classe ideologicamente na medida em que recorre sempre a legalidade, e mesmo faz lembrar a classe que o verdadeiro lugar do conflito é nas urnas, mesmo quando radicalizada a classe trabalhadora e em ação direta, a faz recordar que se votarem corretamente e fizerem os demais também, não precisam se expor aos “riscos” da ação política, nesse sentido o PT traz a classe para ordem burguesa, da representação. A despeito de sua perda de força devido a própria cooptação que realizaram, ainda são de longe a maior força de esquerda organizada. Isso faz com que o PT não seja um mero manipulador da massa, mas parte da massa, da classe trabalhadora que se encontra organizada, e nesse caso sua ideologia é parte integrante da vida dos trabalhadores, e se reproduz cotidianamente, a greve foi um lócus privilegiado para observar como se constroem as narrativas e visões de mundo, não se trata de uma mera alienação da classe, mas de esta ser parte constituinte do projeto, se ver como parte, de este ser seu “chão”, o que faz o PT um projeto de parte significativa da classe. Articulando a necessidade de conciliação e de operação do sistema, que ao mesmo tempo cede pouco, mas cede para a gestão se fazer possível, pois sem pacto de classes o capitalismo se torna instável, somado a força ideológica do projeto, faz com que atualmente o Estado possível, seja o Estado neodesenvolvimentista, mesmo que sobre tensão, este é o Estado possível, pois articula e traz coesão em todas as esferas para a sociedade.

 

O PT nesse microcosmo faz o papel de alimentar nas massas radicalizadas a esperança em uma saída mediada

O PT nesse microcosmo faz o papel de alimentar nas massas radicalizadas a esperança em uma saída mediada

Nesse sentido a percepção “do menos pior” se desmancha no ar, pois não se trata de o PT ser o menos pior, mas de variáveis estruturais que o colocam como o real e possível, tanto quanto a limitação do horizonte ideológico alimentado na classe em decorrência da hegemonia do PT, e mesmo das ofensivas da classe dominante promovidas sobre as classes exploradas, permitidas também pela capitulação promovida pelo PT. Reproduzir hoje a prática do “voto crítico” (que significa mais que votar, mas militantemente afirmar ser este o único projeto de classe possível), em especial, na arena do micro, nas práticas cotidianas, faz por reforçar o atual projeto de Estado, o neodesenvolvimentismo, que é o que tem se demonstrado o mais eficaz para conciliação de classe. Não se trata também de reivindicar o “quanto pior melhor” (promovido pelos Richas da vida), mas de compreender que estes aspectos gestionários do Estado, não são variáveis independentes como querem alguns analíticos da teoria das elites, mas elementos que estruturam e são estruturados pelo todo, e que também se conformam na prática cotidiana. Se o Estado neodesenvolvimentista foi possível, o foi pelas estratégias e práticas que promoveram o PT na classe, e não somente porque esta é uma das etapas da História, pois se tornou a História, não foi a priori.

A História não é, mas acontece, se faz em nossas práticas, inclusive as práticas cotidianas, o poder não é uma caixa fechada, que quem tem em mãos pode fazer o que bem entender, mas sim uma caixa aberta, que dispersa, e que faz com que o poder emane por todos os lugares se reproduzindo em nossas práticas. O Estado como bem entenderam os anarquistas, é uma instituição burguesa, de esquerda ou direita, burguês, e servirá somente a este senhor, as experiências de instrumentalizar o Estado em “prol” da classe trabalhadora estão ai, não trouxeram nem liberdade nem justiça, mas conciliação ou estabelecimento de novas classes dirigentes, não o fim. Nesse sentido não existe Estado mais ou menos pior em si, mas sim maior mobilização e consciência reivindicativa da classe, que tensiona este a assumir formas mais favoráveis as suas demandas, aos gestores do Estado cabe disciplinar o conflito nos marcos da legalidade, para que não extrapole a ordem burguesa, e nesse jogo vale mesmo colocar o adversário de ontem no poder, para que o poder não se reorganize. Nas práticas cotidianas isso se demonstra claramente na ideologia e narrativas que os grupos fazem circular, que o PT cumpre o papel de conciliar, de trazer a classe para dentro da arena do Estado. Nesse sentido o “menos pior”, é menos pior para a classe dominante, menos pior é o PT no poder, ou Chavez, ou Mujica, etc. o pior é a classe trabalhadora auto-organizada, com utopias na cabeça e não as distopias, o PT hoje é a distopia, o possível, o real, o socialismo ficou no fim da História nessa visão de mundo, ou é o metamorfoseado socialismo do século XXI, ou seja, mais um eufemismo.

Cabe a nós alimentar o sonho no discurso e na prática, afinal se das pequenas práticas cotidianas é que emanam as ideologias que formam e são formadas pelas práticas, e surge a condição de dar coesão e sustentabilidade ao sistema, é necessário que consigamos em um momento Histórico como este de fazer nossa ideologia (a socialista libertária, revolucionária) se tornar práxis, ser o possível, e isso não se fara com o menos pior, como o “realismo” político, mas com a prática, a materialização em fatos que incorporam o modelo de poder que defendemos, sendo a realidade assim ressignificada e formando nova “carne” nos trabalhadores.

 

[1] Certa corrente de pensamento, mais em específico algo que muitos conhecem como marxismo ortodoxo, partem de uma percepção que a ideologia é a falsa consciência, isso é uma visão falsa da realidade, e não que é parte constituinte como formadora da realidade. Diante desta noção caberia a esquerda iluminar a cabeça dos trabalhadores iludidos.

[2] Penso que um dos maiores exemplos disso é a guerra da água na Bolívia, onde o governo retira da população algo que é fundamental basilar a população, gerando um tipo de conflito que não se resolveria pela mera capacidade repressora do Estado, mas que demanda absorção destas forças sociais pelo Estado.

 

 

 

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