A ”Semana de Arte Moderna” obra dos Integralistas, depois comunistas brasileiros

Retirado do livro Rebeldias – Volume 3, de Edgar Rodrigues. Imagem meramente ilustrativa.

Em 1987, o então presidente José Sarney comparou o industrial Mário Amato com Bakunine, para atribuir ao anarquista cidadão do mundo, nascido na Rússia, a autoria da “desobediência civil”, teoria defendida pelo escritor americano Henry Thoureau.

O equívoco gerou risos, críticas, polêmicas, ação nos tribunais de São Paulo, e em agosto Bakunine virou nome de vodka lançada pela fábrica de bebidas Sabará de Rio Claro.

Para contestar a exploração comercial, lucrativa de uma bebida com o nome de Miguel Bakunine, jovens atores de São Paulo reunidos em torno do extravagante título: “Grupo Necas de Piritibas” escreveram um texto sobre Bakunine adaptado para o teatro. Uma viagem através do tempo acompanhando a vida agitada e revolucionária do anarquista russo.

A peça é uma homenagem e um desagravo ao anarquista que 114 anos depois do falecimento, seus pensamentos continuam atuais, vivos.

Representada inicialmente no palco do Teatro Bexiga em São Paulo, e prestigiada pelo Centro de Cultura Social do Brás, com exposição de textos e imprensa anarquista do Brasil e do mundo no saguão do teatro, a peça Bakunine fez tanto sucesso que o grupo acabou convidado pela Universidade de Florianópolis, Santa Catarina, para realizar um espetáculo para seus mestres e alunos. Precedida de palestra de Jaime Cubero, a representação agradou tanto que originou a formação de um grupo de professores e alunos interessados em estudar o anarquismo e a educação libertária em forma de revitalizador do ensino oficial totalmente ultrapassado.

Dentro desse contexto, o anarquismo saiu imediatamente vitorioso com a perspectiva de formação de mais de um núcleo de estudos ácratas.
Outro acontecimento que mexeu com o ego das esquerdas, principalmente no Rio da Janeiro, foi o livro Hitler-Stalin: O Pacto Maldito e Suas Repercussões no Brasil, de Joel Silveira e Geneton Morais Neto.

Os autores aproveitaram a derrocada da ditadura do proletariado “provocada pelo camarada” Gorbatchov para confessarem seus pecados e se desculpar de ter feito propaganda do nazismo no jornal Meio Dia, propriedade do industrial falido Joaquim Inoja, impresso com dinheiro nazista da agência alemã Transcoean, do Rio de Janeiro, comandada pelo “comissário de polícia alemã Hans Ehlert” que fornecia as notícias de graça para o jornal e ainda pagava sua publicação.

E os agentes da Gestapo no Brasil queriam mais…Para tornar o jornal de 30 mil cópias um informante nazista confiável, incluíram um caderno cultural dirigido pelo escritor Jorge Amado, e a colaboração de Osvaldo de Andrade, Joel da Silveira e toda a fina flor intelectual do PCB (Partido Comunista Brasileiro).

As “famosas ordens de Moscou” faziam jus aos pagamentos que chegavam ao Meio Dia, através do DIP (serviço de censura do ditador pró-nazismo Getúlio Vargas) via embaixada alemã no Rio de Janeiro. Todos os servidores do PCB cumpriam caninamente as ordens do Kremlin como confessa o “arrependido” Joel Silveira:

“Entrei para o suplemento literário do Meio Dia, jornal pró-Alemanha. A esquerda vivia sob o Pacto de não agressão assinado entre Alemanha de Adolf Hitler e a Rússia de Josef Stálin.
Botar tudo para fora, vomitar essa espinha espetada na garganta – escreve Joel Silveira – é o que posso fazer, porque participei dessa patifaria e dessa coisa espúria que foi o pacto da União Soviética com a Alemanha. Mas eram ordens de Moscou colaborar e atacar o imperialismo britânico (isso ainda acontecia a pouco!!!) e francês. Durante 21 meses, a palavra fascismo foi proibida na Rússia. Em 39 e 40, militantes comunistas podiam ser a favor – mas não contra o fascismo.
Naquele tempo, a única coisa que a gente seguia era Stalin, a Rússia. Se Stalin, o guia genial da humanidade, tinha assinado o pacto, quem éramos nós pobres e míseros comunistas, ou simpatizantes, ou inocentes úteis e inúteis, para discutir as ordens de Moscou?
A verdade é que as ordens de Moscou não se discutiam. A ordem era colaborar, evitar a palavra ‘fascismo’ durante a vigência do pacto de não agressão, como se não houvesse mais fascismo…Uma vez o Jorge Amado mesmo me pagou” – garante Joel Silveira. E mais: “O que escrevia no Meio Dia podia sair no Pravda”.

“Além do Meio Dia, vários elementos da esquerda – brilhantíssimos – trabalhavam na agência (nazista) Transocean. Alguns já pertenciam ao PCB, então na ilegalidade”.

Em meu livro “Novos Rumos”, de 1978, comentei o comportamento do escritor Jorge Amado e outros propagandistas do nazismo, sob alegação hoje de que Inglaterra e França ajudaram a esmagar o povo espanhol, esquecendo que Hitler foi o “grande herói” da vitória do general Franco, na Espanha.

O livro “Hitler-Stalin: O Pacto Maldito e Suas Repercussões no Brasil” de Joel Silveira e Geneton Morais Neto não chega a ser uma boa desculpa. Na década de trinta, Aktion (jornal de Porto Alegre/ Rio Grande do Sul), dirigido por Frederico Kniestedt, denunciava mensalmente a trama de Hitler contra a humanidade, com riqueza de detalhes.

Jorge Amado, Joel Silveira e outros servidores não podiam ouvir a voz do Aktion porque o artigo 13 dos estatutos do PCB proibia qualquer leitura ou relacionamento com gente que não fosse comunista, e o diretor desse jornal – embora alemão – era anarquista.

Tampouco “notaram” as invasões de parte da Polônia, da Lituânia, da Estônia, a guerra contra a Finlândia, o avanço sobre a Mongólia, Bssarabia, Bukovina. A palavra de ordem do Izvestia, as declarações de Manuilski, Molotov e Stalin no Pravda de que “Quem declarou guerra a Alemanha foi a França e a Inglaterra”, e/ou a introdução e os 7 artigos do pacto eram determinações “divinas”…

Na verdade o “Pacto” germano-soviético – além de um tratado imbecil passado a Stalin por Hitler – serviu para testar o controle remoto do Kremlim usado para comandar os robôs do Partido Comunista Brasileiro.

Ao completar agora os 70 anos da “Semana de Arte Moderna”, pode dizer-se que seus mais aplaudidos criadores transitaram pelo Integralismo (fascismo), pelo nazismo para entrar no “comunismo” ou “socialismo real”.

(Cara-Dura e Subversivo, São Paulo/SP, Maio de 1992)

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