A Onda Olavística

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Um fenômeno da direita brasileira vem se destacando nos últimos tempos: o “olavismo”.

Seu mentor é Olavo de Carvalho, um brasileiro que há muito mora nos Estados Unidos, mas influencia vários membros da direita no Brasil, com discursos que nos soam ridículos e esquizofrênicos.

Não negando a falta de bom senso do que é dito, é preciso compreender o porque é dito e o que é dito de fato. Ao contrário do que parece, não é apenas loucura de um homem conservador e reacionário.

O que Olavo de Carvalho vem repetindo é um discurso de direita que tem contexto nos EUA, e que não tem embasamento no Brasil. É o discurso de uma ala radical do Partido Republica norte-americano. Antes de mais nada, precisamos entender a conjuntura local.

Os Estados Unidos da América vive em disputa por dois partidos que representam os interesses econômicos locais.
O Partido Republicano é o porta-voz dos setores mais à direita. Nele estão desde os adeptos de um liberalismo econômico radical até os racistas da Ku Klux Klan. O Conservadorismo americano é uma ideologia muito impregnada nesse meio, que nasce dos religiosos que fugiam da Inglaterra devido a perseguição política. Por isso, essa corrente política defende um livre mercado, oriundo das inspirações liberais, combinado a um moralismo nos costumes. Outra ideologia forte no partido é o neoconservadorismo, de cunho belicista e que defende intervenção massiva nos países ao redor do globo.

O Partido Democrata, por sua vez, representa a ala progressista e reformista. Estão inclusas aqui correntes como a Social-Democracia e o Social-Liberalismo, e são o partido que hoje está no poder na figura de Barack Obama. Ao contrário do rival, possui posições como legalização das drogas, descriminalização do aborto, contra pena de morte e à favor dos homossexuais.

Claro que, na prática, ambos servem aos interesses da classe econômica dominante, mas possuem suas divergências principalmente na questão cultural. Não é a toa que os Republicanos são conhecidos como Conservadores, e os Democratas como Liberais (sem relação, a priori, ao liberalismo econômico, e sim a liberdade de costumes).

Agora, isso estando compreendido, observemos o que o Olavo fala.

Segundo ele, há três forças disputando o mundo: o Consórcio, os Eurasianos e os Muçulmanos. E que pra qualquer uma das forças vencerem, precisam destruir a resistência: o conservadorismo cristão norte americano e pró-israelense.

Primeira força: Segundo o próprio Olavo
“A elite financeira ocidental, tal como representada especialmente no Clube Bilderberg, no Council on Foreign Relations (CFR) e na Comissão Trilateral.”
“O Consórcio é a organização de grandes capitalistas e banqueiros internacionais, empenhados em instaurar uma ditadura mundial socialista  (…) seria preciso implantar o socialismo por métodos graduais e incruentos, usando como instrumento o próprio aparato jurídico-político da sociedade burguesa e conservando, na medida do possível, a quota mínima de direitos e responsabilidades legais necessária para proteger, se não a população em geral, ao menos a própria elite revolucionária. (…)O barão Rothschild, por exemplo, é dono do Le Monde, o jornal mais esquerdista e anti-israelense da grande mídia européia, assim como a família judia Sulzberger é dona do diário americano que mais mente contra Israel. O Sr. George Soros, judeu que ajudou os nazistas a tomar as propriedades de outros judeus, financia tudo quanto é movimento anti-americano e anti-israelense do mundo.”

Segunda força:
“A elite governante da Rússia e da China, especialmente os serviços secretos desses dois países.”
“…caso russo-chinês o projeto globalista corresponde simetricamente aos interesses nacionais e os agentes principais são os respectivos Estados e governos. Isso acontece pela simples razão de que o regime comunista, vigorando ali por décadas, dissolveu ou eliminou todos os demais agentes possíveis. A elite globalista da Rússia e da China são os governos desses dois países.”

Terceira força:
“A Fraternidade Islâmica, as lideranças religiosas de vários países islâmicos e também alguns governos de países muçulmanos.”
“Os globalistas islâmicos atendem, em princípio, a interesses gerais de todos os Estados muçulmanos, unidos no grande projeto do Califado Universal. Divergências produzidas por choques de interesses nacionais (como por exemplo entre o Irã e a Arábia Saudita) não têm sido suficientes para abrir feridas insanáveis na unidade do projeto islâmico de longo prazo. A Fraternidade Islâmica, condutora maior do processo, é uma organização transnacional: ela governa alguns países, em outros está na oposição, mas sua influência é onipresente no mundo islâmico.”

Em outras palavras, o Olavo de Carvalho une alguns fatos geopolíticos (a presença, sim, de certas forças mundiais) com fortes preconceitos do conservadorismo norte-americano e recheado de teorias da conspiração.
O tal “Consórcio” nada mais é do que os setores burgueses “progressistas”. A Burguesia social-democrata ou social-liberal. A Mídia que não vê problemas da liberalização dos costumes,  ou setores da política yankee que reconhecem os exageros de Israel. Aqueles setores da democracia burguesa que não sustentam o conservadorismo e a ortodoxia religiosa, para o Olavo, são parte de uma conspiração “socialista”.
E aqui temos o primeiro ponto: a negação do progresso.

A “ameaça eurasiana” é, para o Olavo, uma versão mil vezes aumentada e violenta do bloco anti-imperialista liderado pela Rússia e China. Olavo de Carvalho aumenta e exagera os massacres promovidos pelos regimes durante a Guerra Fria a níveis absurdos, e mistura um posicionamento geopolítico ao “comunismo”. De uma forma mais disfarçada, aqui está o velho anticomunismo macarthista, e nosso segundo ponto.

Por fim, a tal conspiração islâmica, onde Olavo consegue unir grupos e ideologias diversas e inimigas num grande exército, é o mais simples: representa a islamofobia crescente nos Estados Unidos pós-11 de setembro.

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Resistência a essas forças: o caipira cristão que mora num sítio com cães e uma espingarda velha que fala que odeia todo mundo e é anticomunista, anti-islã e anti-progressismo.

Como ele mesmo diz:

“Isso não quer dizer, evidentemente, que eu não seja a favor de nada, nem veja forças positivas em ação no mundo. Mas, precisamente, essas forças não se contam entre os agentes principais em disputa e não têm, ao menos no momento, nenhum plano ou estratégia global que possa neutralizar ou desarmar os três monstros. Entre elas, eu destacaria: (1) as comunidades cristãs, católicas ou protestantes, de todos os países;  (2) a nação judaica; (3) o nacionalismo conservador americano. (…) Que a extinção do cristianismo católico-protestante, do Estado de Israel e da América nacionalista está no programa dos três grandes blocos globalistas, é coisa que não precisa ser provada, tão patente é o assalto cultural, midiático, político e jurídico que se move contra essas entidades desde três direções diversas e convergentes (…)Uma frente unida mundial cristã, judaica e nacionalista americana não seria má ideia (…)”

Conclusão: a ideologia do Olavo é a mesma de um típico membro do Tea Party, a ala mais extremista do setor conservador do Partido Republicano.

Por isso mesmo que Olavo de Carvalho diz que não há direita no Brasil. Se considerarmos que a posição política dele não é representada por nenhum dos grandes partidos daqui, não há mesmo. Da grande mídia, a única que faz coro com os Republicanos e Conservadores norte-americanos é a Revista Veja, com colunistas como Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino. Outros setores da Burguesia aqui, ou fazem coro com o Neoliberalismo “progressista” ou com o desenvolvimentismo governista, ou, no máximo, com os clássicos “feudalistas” e “coronelistas”  brasileiros.

Até o Jair Bolsonaro, famoso integrante da extrema direita, possui um alinhamento mais com o Integralismo e o Militarismo pró-ditadura do que com os desvaneios do conservadorismo norte-americano.  Que, aliás, como o próprio nome diz, deveria ter continuado lá.

A grande ameaça da extrema direita no Brasil é, na verdade, um conjunto de ideologias, retalhos. O fundamentalismo evangélico (Feliciano, Malafaia), o Conservadorismo americano (Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino), o Pseudo-Integralismo (Bolsonaro, Fidelix) , o “Libertarianismo” (Paulo Batista), entre outros. Podem crescer e cooperar por um tempo, mas quanto mais crescerem, mais rápido irão se despedaçar e romper entre si. O grande problema é o que poderão fazer antes disso acontecer.

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