Entre farsas e tragédias

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É assim que a História se repete. Em 1936 na Espanha, a CNT, central sindical de cunho anarcossindicalista, e a FAI (Federação Anarquista Ibérica) promoveram uma das mais conhecidas e notáveis experiências libertárias da História. Milícias populares assumiram o controle de fábricas e terras, aplicando a autogestão, ou seja, o socialismo democrático idealizado por pensadores como Bakunin e Kropotkin.

Isso decorreu em resposta a um golpe militar articulado pela Extrema Direita, na figura do General Francisco Franco, com apoio da Alemanha Nazista e da Itália Fascista, e sustentado pela Igreja Católica e pelo Latifúndio.

Diante dessa ameaça, os anarquistas entraram em um dilema: deveriam radicalizar e aprofundar sua revolução, ou moderar e cooperar com os republicanos, social-democratas e marxistas, formando uma frente de esquerda unificada? Independente da posição mais correta, o fato é que a tomada pela maioria foi a segunda.
Mas isso não foi retribuído pelas democracias capitalistas nem pela União Soviética. Inglaterra e França, as principais potências burguesas democráticas na época, optaram por um boicote as forças populares em resistência e um silêncio sobre o apoio do totalitarismo de direita aos golpistas.

Por outro lado, Stálin, temendo perder o controle da situação espanhola e desejando agradar as potências ocidentais, utilizou seus vassalos do Partido Comunista para pressionar os republicanos e social-democratas a boicotarem as milícias populares (que haviam detido o golpe num primeiro momento).

Com essas posturas covardes, a Espanha logo foi tomada pelas botas militares, com a benção do Vaticano e apoio do Eixo.

Curiosamente, hoje, no ano de 2015, exatos 79 anos após a guerra civil espanhola, nos encontramos em uma situação não muito diferente.

Uma experiência de orientação socialista libertária ocorre no interior do Oriente Médio, promovida pela etnia curda. E tal como no passado, está sob risco de esmagamento por parte da extrema direita, representada pelo jihadismo do Estado Islâmico, dissidência da Al-Qaeda. Sua vitória representará massacres e escravidão.

As potências ocidentais não diferem muito: a OTAN, no qual figuram não apenas as boas e velhas Inglaterra e França, como também vários outros países, tais quais o atual dono do mundo – os Estados Unidos da América – e a Turquia, inimiga da independência curda. O governo turco teme o nascimento do curdistão pois perderia parte de seu território, e é extremamente hostil aos revolucionários. A própria OTAN os considera terroristas. Por todos esses fatores, se segue um silêncio criminoso diante da ameaça do fundamentalismo contra a resistência curda.

Continuando a nossa representação do passado, a Rússia – novamente em seu papel de “líder do anti-imperialismo” – retoma sua postura de não apoio revolucionário. Os curdos são um problema também ao Irã e à Síria, aliados russos, e não apresentam qualquer vantagem a geopolítica do Kremlin. Obviamente, tal atitude é acompanhada por todos os países do bloco “anti-EUA” como China, Venezuela e Cuba. A Esquerda Internacional, que há muito se vendeu a qualquer regime que desafia o imperialismo norte-americano, por sua orientação costumeiramente estatal, se faz de cega e surda para o que está a ocorrer.

Substituamos a Alemanha Nazista pelo Estado Islâmico, o Stalinismo pelo “anti-imperialismo”, as potências ocidentais por suas versões atualizadas e os espanhóis libertários pelos curdos, e quase tudo fica em seu lugar. Quase tudo, porque em 1936 ao menos se havia uma atenção mundial muito maior ao que ocorria, diferente de como é tratado hoje, onde a divulgação fica quase que apenas por conta de organizações anarquistas.

Talvez porque a Europa seja mais merecedora de atenção do que uma etnia no confuso oriente médio. Talvez por puro cretinismo da velha esquerda autoritária e os governos mundiais.

O passado e a atualidade confirmam: o Estado continua a ser uma tragédia e uma farsa.

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