Pílulas sobre a história: Trotskistas ensinam

Está circulando uma imagem com Marx num cartoon de uma página de uma rede social intitulada Trotski ensina [1], com a seguinte frase: “A classe trabalhadora tem de aprender, que seu poder não está necessariamente  na força do voto, mas na capacidade de parar a produção, não no seu voto”.

Marx não é autor desta frase.

Marx não é autor desta frase.

Tudo certo, se a frase não fosse da ANARQUISTA Voltairine de Cleyre. Porém há outros problemas, além do erro autoral. A frase original é: “A classe trabalhadora tem de aprender, que seu poder não está na força do voto, mas na capacidade de parar a produção” [“must learn that their power does not lie in their voting strength, that their power lies in their ability to stop production.]. No imaginário trotskista que justifica “taticamente” a ação eleitoreira/eleitoral, a inserção subreptícia da palavra “necessariamente” abranda a força do verbo revolucionário e categórico da militante anarquista. Não precisamos ser linguistas para saber que a adição de uma palavra muda totalmente o sentido de uma frase. Para não dizerem que cometi uma injustiça, muito provavelmente o cartoon foi pego aleatoriamente de outra página e infelizmente reproduzido às custas da verdade. Mas o que isto esconde? E qual é o debate de fundo?

Como abandonei toda ingenuidade para com a práticas deste quilate, ancorada na tríade recorrente da apropriação/deturpação/difamação de algumas doutrinas políticas, sigo na tese. Para fins de referência, ainda que seja difícil pesquisar algo pela internet, todas as referências apontam que a autoria da frase é da anarquista Voltairine de Cleyre, que agora, vê sua frase ser roubada por um homem, um grande teórico, que vez ou outra “deglute” outros pensadores “menores”. Afinal, no mundo dos mitos historiográficos foi Marx que inventou o socialismo e não os trabalhadores.

cleyre

Livro referência sobre a militante e seus artigos.

Foto da anarquista Voltairine de Cleyre.

Foto da anarquista Voltairine de Cleyre.

Para melhorar a exatidão do que estou dizendo eis o livro em que a frase é citada (no artigo Direct Action): Exquisite Rebel: The Essays of Voltairine De Cleyre – Anarchist, Feminist, Genius, Sharon Presley and Crispin Sartwell (Editors), State University of New York Press (ISBN: 0791460940). Alguns podem achar que estou sendo rigoroso. Mas o imaginário trotskista é cruel para com outras tradições do socialismo, senão um adversário implacável e persistente da diversidade ideológica dentro da esquerda. Sendo assim, o mínimo que podemos fazer é restituir as linhas e fronteiras que nos distinguem. Pois bem, outro dia (há alguns anos para dizer a verdade), vi uma agenda feita por uma legenda trotskista, com um anarquista na capa em cima de um carro virado no contexto dos movimentos anti-globalização, tudo correto, se ao fundo, uma bandeira negra tivesse sido pintada digitalmente de vermelha. Para aqueles que associam a falsificação da história apenas aos Stalinistas (como na deturpação em que Stálin some com Trótsky de uma foto clássica da Revolução Russa) fica a lição.

Foto original. Na foto adulterada, Stálin ordenou o sumiço de Trótsky da imagem.

Foto original. Na foto adulterada, Stálin ordenou o sumiço de Trótsky da imagem.

Um ato falho alguns dirão. Apenas um ato falho sem importância. Mas não ignoremos os atos falhos, Freud nunca o fez. Do ponto de vista psicológico, os atos falhos são importantes; pois deles, descobrimos os “complexos”, ou no caso do cartoon, uma prática política duvidosa e que trata a história quando conveniente[2], como uma terrível massa de modelar [3].

Trotski ensina.

Trotski ensina.

[1] A grafia de Trótsky é geralmente apresentada na duas formas: Trótski ou Trótsky.

[2] Um exemplo é o tratamento do Trotskismo a Nestor Makhno e a makhnovischina, movimento popular de inspiração anarquista que protagonizou uma Revolução Social na Ucrânia e derrotou o exército branco. Sob a égide do trotskismo a makhnovischina e Makhno serão tratados como “bandidos” e “criminosos na imprensa soviética. Tal postura prosseguirá durante o stalinismo. Que na Enciclopédia Soviética tratará a makhnovischina como um movimento apoiado pelos kulaks (proprietários de terra abastados).

[3] Um exemplo deste comportamento é o texto a-histórico publicado por Henrique Canary que compara o anarquismo ao neo-liberalismo de Margaret Thatcher. Disponível em: http://www.pstu.org.br/node/19465

Rafael V. da Silva

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2 Comentários

  1. “Não precisamos ser linguistas para saber que a adição de uma palavra muda totalmente o sentido de uma frase.” … E não precisamos ser linguistas para perceber que a luta se trava também no campo simbólico. E nessa “guerrilha”, seu texto se apresenta como arma necessária e eficaz. No alvo!

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