Prejuízos Públicos, Privataria Privada: o caso Maracanã

1,73 bilhão. Este é o valor gasto no estádio do Maracanã. Somadas aí a reforma para o Mundial de Clubes exigidas pela FIFA, as reformas do PAN Americano e as últimas obras de adaptação do Estádio para a Copa do Mundo.

A Delta uma das primeiras concessionárias a administrar a reforma tem ligações  com o governo estadual. Diversas irregularidades foram denunciadas pelo Ministério Público, entre elas, gastos excessivos realizados na obra. Mas dinheiro é o que não falta para a reforma, hoje administrada pela Odebrecht e a Andrade Gutierrez. Além de beneficiadas com recursos do governo estadual para realizar a reforma, essas empreiteiras receberam dinheiro do BNDES. O BNDES em tese deveria servir como um banco de financiamento de projetos de desenvolvimento social, mas sua real função é promover grandes empreendimentos arriscados para os lucros dos empresários, mas que podem ser feitos com dinheiro público (outro eufemismo para dinheiro dos principais contribuintes, trabalhadores assalariados).

Para maquiar as ligações íntimas entre lobbistas, empresários e políticos a estratégia é apresentar no campo da propaganda (que cria e fomenta imaginários) o benefício privado como público. A reforma do Maracanã não atenderia benefícios privados, mas sim estaria a serviço do Brasil e de um ufanismo torto que só se consolida com uma Copa do Mundo que custará aos cofres públicos quase dez vezes mais do que os “modestos” 10 bilhões projetados pelo ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira.

Fernando Cavendish (ex-presidente da Delta) que acuado pela opinião pública abandonou como um rato a “despensa” de grandes obras e empreitadas bancadas pelo governo do Estado é amigo íntimo de Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro. Sérgio Cabral, esteve presente numa festa de aniversário de Fernando Cavendish, proprietário da Delta, em um resort de luxo no sul da Bahia (voou para lá com um jatinho fretado por Eike Batista). As fotos emblemáticas, de um encontro em Paris no ano de 2009, com direito a coreografia melancólica e panos na cabeça atestam a relação estreita entre poder político e poder econômico.

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Ligações perigosas mas habituais: relação de políticos, lobbistas e empresários é a regra do jogo, não sua exceção.

Além de Cavendish e Sérgio Cabral, as imagens evidenciam a intimidade entre lobbistas, grandes empresários e políticos, com direito a presença do secretaŕio de saúde Sérgio Côrtes, do então secretário estadual de fazenda Joaquim Levy, do secretário de urbanismo do prefeito Eduardo Paes e (pasmem) do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE), a quem caberia – segundo a auto-imagem idealizada do próprio Estado em sua atual forma histórica – fiscalizar o bom andamendo dos “gastos” públicos.

A Delta que se retirou sob pressão da opinião pública do consórcio responsável pela obra do Maracanã é uma das empresas que mais recebeu dinheiro do governo Cabral nos últimos cinco anos. Em dez anos a Delta alavancou sua arrecadação de 67 milhões de reais para 3 bilhões de reais, baseadas principalmente nas vitórias em licitações de obras públicas. Nada comparado aos modestos 1,15 milhão investidos da Delta no PMDB, partido de Sérgio Cabral. Mas a Delta, no mundo dinâmico dos piratas de terno esconde-se dos holofotes das grandes obras, deixando o botim a outros empresários do ramo.

Apesar dos protestos surdos do Ministério Público – que cada vez mais parece ter uma função “decorativa” na sala de estar do banquete econômico e político – o Maracanã foi licitado a empresa IMX de propriedade de Eike Batista. As denúncias de favorecimento são bem claras, mas revelam muito mais do que uma exceção na regra dos banquetes com dinheiro público. O favorecimento e a privataria no mundo político e econômico dos corredores do Estado não são exceções. São apresentados desta forma pela mídia corporativa como um “furo” jornalístico porque há de se transmitir a ideia e a auto-ilusão de que no mundo dos negócios o privado não se mistura com o público quando sabemos que num mundo de piratas a pirataria só pode ser a regra. Não devemos deste modo cair nos idealismos mais pueris. O público e o privado dentro do Estado não são esferas “autônomas”, fazem parte da lógica de funcionamento e dos procedimentos internos da estrutura governamental. .

As ligações íntimas entre lobbistas, empresários e políticos não denunciam portanto “deslizes” eventuais são sua condição de sobrevivência, gerenciamento e acumulação.

O resultado desses procedimentos podem não parecer tão claros e as denúncias de “irregularidades”, tão cansativas e repetitivas nos noticiários locais podem ter encoberto seus efeitos, mas basta olhar o preço do ingresso do próximo jogo do Maracanã (*), para termos certeza de que a privatização/privataria financiada pelos acordos íntimos palacianos obedecem a lógica dos lucros, jamais ao bem “público”.

* Flamengo e Santos, estimativa de ingresso, R$ 160,00.

Rafael V. da Silva

Fontes:

http://brazilianpost.co.uk/06/05/2013/infografico-da-agencia-publica-mostra-gastos-do-maracana/

http://esportes.r7.com/futebol/noticias/-copa-do-mundo-vai-custar-r-100-bilhoes-para-o-brasil-diz-romario-20110622.html

http://www.ndonline.com.br/florianopolis/esportes/63186-governo-nao-se-preocupa-em-reaver-r$-12-bi-gastos-no-maracana.html

http://g1.globo.com/politica/noticia/2012/04/delta-deixa-consorcio-responsavel-pela-reforma-do-maracana.html

http://www.portal2014.org.br/andamento-obras/14/Estadio+do+Maracana.html

http://ricardo-gama.blogspot.com.br/2011/06/relacoes-initmas-delta-construtora-doou.html

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