Marcos Feliciano e a ponta do iceberg

Muito se falou à respeito da presidência da comissão de direitos humanos na qual, uma figura filiada ao PSC promoveu-se politicamente em torno de bandeiras contrárias aos direitos dos movimentos LGBTTS. Sob risco de repetir muitos dos argumentos utilizados pelos opositores a figura do deputado Marcos Feliciano, gostaria de chamar atenção para alguns aspectos desta questão, entrelaçando com algumas reflexões teóricas e analíticas sem pretensão nenhuma de esgotar o tema.

Apesar de tentar desmentir diversas afirmações racistas e preconceituosas feitas publicamente, o twitter do deputado é marcado por comentários reacionários.

Comecemos pelo óbvio, Feliciano trouxe a tona, a face mais explicitamente reacionária do conservadorismo presente no país. Um conservadorismo que se traduz não apenas na presença da bancada política ligadas a denominações religiosas no interior do congresso nacional, mas se apresenta capilarizado na opinião de largos setores da sociedade (trabalhadores, camadas médias ou “pequena-burguesia”, burguesia, etc.) à respeito das demandas históricas dos movimentos LGBTTT’s. O que Feliciano fez foi aglutinar e “organizar” esse sentimento conservador em torno de uma bandeira, o que nos traz uma memória desagradável para com outras experiências históricas semelhantes que redundaram na ascensão de líderes fascistas. A lembrança ganha contornos de preocupação quando nos deparamos com a análise do psicólogo Wilhelm Reich, que em seu livro, Psicologia de Massas do Fascismo, atentava para o fato de como uma determinada forma de repressão sexual em massa pode ser aproveitada por movimentos conservadores em direção a outros projetos políticos.

Ainda que os contextos históricos difiram, o partido de Feliciano, pouco expressivo do ponto de vista da correlação de forças do Congresso se catapultou politicamente, ganhando visibilidade e expressão pública. Feliciano, Silas Malafaia e outros líderes neo-pentecostais conseguiram forjar uma unidade ideológica principalmente com base na força mobilizatória de setores da classe trabalhadora que aponta para um consenso conservador, redes de apoio mútuo e a ocupação de postos de poder por suas lideranças. Suas principais bandeiras são baseadas na defesa da família monogâmica, no ataque aos direitos dos LGBTTT’s e também na redução da maioridade penal [1]. A base de apoio em que se sustenta a mentalidade reacionária não é necessariamente uma base explicitamente consciente, ainda que um discurso político como o de Feliciano faça o desfavor de transformar algo inconsciente em opinião política balizada.

Como bem apontou o texto “O que a esquerda deveria aprender com os evangélicos[2], não podemos reduzir o crescimento das igrejas que defendem a teologia da prosperidade ao poder carismático e “mágico” de seus líderes. O autor (anônimo) do artigo coerentemente demonstra o vazio ocupado pelas associações protestantes, fruto de um trabalho incansável de aproximação do povo nas últimas décadas e que foi negligenciado por largos setores da esquerda. Contrariando as teses mais básicas do eixo propositivo do socialismo – em sua dimensão mais ampla – a esquerda (com honrosas exceções) preferiu se reunir em torno de bandeiras geralmente abstratas e longe da realidade popular, enquanto as entidades religiosas construíam uma extensa rede nas regiões periféricas do país e além disso, conseguiam solucionar problemas materiais concretos.

O imaginário cristão está sendo trabalhado pela esquerda?

O imaginário cristão está sendo trabalhado pela esquerda?

A conjugação explosiva de um forte consenso conservador com uma crise política e econômica pode gerar um movimento de direita com vistas a interferir na ordem vigente. Que os movimentos sociais e a esquerda sejam capazes de modificar este cenário.

[1] Como consta em sua última entrevista a tv, exibida em 17/04/2013 na Rede TV.

[2] “O que a Esquerda deveria aprender com os evangélicos”. 2013. Disponível em <http://www.pavablog.com/2012/03/07/o-que-a-esquerda-deveria-aprender-com-os-evangelicos/> Acessado em 18/04/2013.

Por Rafael V. da Silva

 

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